segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Casa de JORGE AMADO em ruinas

O artigo abaixo revela o descalabro em que se encontra o setor cultural na Bahia. Postei por acreditar ser de interesse dos blogueiros:

A casa de Jorge Amado está desmoronando
Gustavo Tapioca

No dia 20 de julho de 2007, lancei na Fundação Casa de Jorge Amado, no Pelourinho, em Salvador, o livro Meninos do Rio Vermelho. O livro começa e termina na Rua Alagoinhas, no bairro do Rio Vermelho, em Salvador. Uma rua simples “com cadeiras na calçada e na fachada escrito em cima que é um lar”, igual àquelas da música “Gente humilde” de Chico, Garoto e Vinícius. Uma rua onde as crianças brincavam de roda e jogavam bola todos os dias, numa época sem TV e sem VT, sem CD nem DVD, quando ainda era possível brincar no meio da rua.
Em 1960, as crianças da Rua Alagoinhas viram, de repente, aquela ruazinha inexpressiva passar por uma transformação tão fantástica que nem os melhores ficcionistas, os grandes autores de histórias infantis e de contos de fada, e os sonhos mais delirantes dos meninos e meninas que ali nasceram e cresceram poderiam imaginar. Meninos e meninas, que viram uma ruela onde jogavam bola e brincavam de roda, se transformar, num passe de mágica, na calçada da fama, passarela de celebridades. Uma rua completamente desconhecida que, de um dia pro outro, entrou no roteiro turístico da cidade do Salvador, assim como o Pelourinho, o Elevador Lacerda e a Lagoa do Abaeté.
Entravam e saíam da casa 33 dezenas de pintores e escultores, jornalistas e escritores, cineastas, astros e estrelas do cinema, teatro e TV, músicos e compositores, artesãos, intelectuais, políticos, presidentes da República do Brasil, da França e de Portugal, governadores de Estado, poetas, seresteiros, namorados, artistas de todas as artes, turistas do mundo inteiro. Nomes famosos como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, Pablo e Matilde Neruda, Gabriel García Márquez, Glauber Rocha, Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Caymmi, João Ubaldo Ribeiro ( cria de Jorge Amado), Mario Vargas Llosa, José Saramago, Roman Polansky, Eugène Evtuchenko, Mário Soares, François Mitterrand e muitos, muitos outros.
As crianças da Rua Alagoinhas não sabiam nem podiam imaginar que seus novos vizinhos, seu Jorge e dona Zélia – a senhora dona da casa que o marido, a depender do momento de ternura, chamava de Zélia de Euá ou, simplesmente, de Zezinha – era o casal mais apaixonado e mais famoso da história da literatura brasileira, conhecido no mundo inteiro e amigo íntimo de celebridades brasileiras e estrangeiras, que entravam e saíam da casa 33 sem a meninada saber quem eram. Um casal que viveu junto 56 anos – perambulando pela Europa, França e Bahia, –, 40 dos quais na Rua Alagoinhas 33, Rio Vermelho, Salvador, Bahia, Brasil, o país do carnaval.
Moraram e namoraram numa casinha humilde que se transformou, de repente, num castelo encantado com um bosque suspenso carregado de sapotis e cajás, umbus e araçás, mangas rosa, espada e papo-de-rola. Foi lá que nasceram e cresceram as morenas mais frajolas da Bahia – Gabriela, Flor, Tieta, Tereza e dezenas de personagens. Criaturas que saíram da fértil imaginação de Jorge Amado, se multiplicaram em mais de 32 milhões de livros e hoje vivem em 52 países falando 49 idiomas.
No bosque suspenso da Rua Alagoinhas 33 tem um banquinho cravejado de azulejos de Carybé, no qual o casal namorava ao entardecer, espiando o sol cair lentamente sobre a praia de Santana, aquela praia de onde saem os presentes para Iemanjá todo dia dois de fevereiro, dia de festa no mar. Um dia, sentando no banquinho, Jorge disse para Zélia:
“...sento-me contigo no banco de azulejos à sombra da mangueira, esperando a noite chegar para cobrir de estrelas teus cabelos, Zélia de Euá envolta em lua; dá-me tua mão, sorri teu sorriso, me rejubilo no teu beijo, laurel e recompensa. Aqui, neste recanto do jardim, quero repousar em paz quando chegar a hora, eis meu testamento.”
Debaixo do banquinho de azulejo, Zélia de Euá colocou, a pedido dele, as cinzas de seu eterno namorado. Os azulejos de Carybé salpicados sobre o banquinho que abriga os pedacinhos de Jorge Amado estão chorando. E não é só de saudade. É de tristeza pelo descaso, desleixo, desrespeito a que estão relegados. O pior é que não é só o banquinho que está chorando. Chora a casa inteira da Rua Alagoinhas 33. Chora a espera de financiamento para o projeto, já aprovado pelo Ministério da Cultura, de transformar a casa 33 no Memorial Jorge Amado. “Muito se tem trabalhado para que a casa da Rua Alagoinhas seja aberta ao público, mas os trâmites burocráticos são mais lentos do que o desejado. A burocracia é bicho frio e vagaroso”, disse uma Paloma triste, filha de Jorge, no prefácio do livro Memorial do Amor da mamãe Zélia Gattai. Disse isso em 2004. Até hoje, nada.As obras de arte que puderam ser retiradas e que decoravam a casa inteira estão guardadas na Fundação Casa de Jorge Amado, inaugurada em 1987, em Salvador, na esperança de um dia voltar para a casa da Rua Alagoinhas, de onde, se houvesse condições de lá ficar, nunca deveriam ter saído.
No casarão azul do Largo do Pelourinho, sede da Fundação, estão o centro de documentação e pesquisa, com cerca de 250 mil documentos de Jorge Amado e de Zélia Gattai, uma loja-livraria, café-teatro e uma exposição permanente sobre a vida e obra do escritor. Ali se realizam exposições temporárias, espetáculos e conferências. A Fundação publica a revista Exu e tem uma editora de incentivo a novos autores, a Casa de Palavras. A situação já estava ruim com o desleixo com à casa da Rua Alagoinhas 33. Ficou pior com a decisão intempestiva e inexplicável do governador Jacques Wagner de cortar o repasse mensal de 68 mil reais, que vinha sendo feito há dez anos. Por falta de recursos, a Fundação demitiu funcionários, passou a funcionar só no turno da tarde e o ar condicionado foi desligado, colocando em risco todo o acervo do escritor. Daí o desabafo de João Ubaldo Ribeiro em entrevista à Terra Magazine:
“É uma vergonha, uma indignidade para a Bahia. Jorge Amado quis que seu acervo ficasse em Salvador, no Pelourinho. Recebeu uma proposta da Universidade de Harvard, mas não quis! Jorge queria ver seu acervo junto ao povo que ele amava. Ele defendeu a Bahia até a morte, não pode ser desrespeitado. Para o Brasil, Jorge Amado é um símbolo. É um ícone, um Pelé. É lido em 52 países! O povo baiano precisa tomar vergonha na cara. Não vou bancar o porreta, mas eu já tomei vergonha.”
Após o grito de João Ubaldo, o governador Jacques Wagner anunciou que o governo da Bahia vai voltar a financiar a Fundação Casa de Jorge Amado. Ótimo. Quando? E o banquinho que protege as cinzas do grande escritor baiano? E a casa inteira da Rua Alagoinhas 33?

Gustavo Tapioca, 60, jornalista e escritor, é autor de Meninos do Rio Vermelho (Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 2007. 145p.)

Um comentário:

Anônimo disse...

Me deu vontade de chorar de rir dessa charopada.

Porque as entidades de cultura da Bahia não procuram dar viabilidade econômica ao seu business ao invés de procurar um assistencialismo estatal?

Ninguém se pergunta de onde o dinheiro do estado vem?

Deve-se procurar uma solução viável em conjunto com a iniciativa privada, como no museu de história natural de Chicago ou mesmo no museu Picasso em Paris, viável, cobrado, bom e com big mac e ovomaltine a venda!

Estava escutando Maria Betânia dizer na televisão esses dias que não se podia ter a mesma redução de impostos para os esportes que para a cultura pois a concorrência era desleal... Se somente 1% da população consome esse é o real dimensionamento do business. Ou como se diz na rua essa é a real!

Julio