terça-feira, 18 de dezembro de 2007

CANUDOS

Carta aberta da profa Dra. Ely Estrela (UNEB) aos intelectuais baianos e outros:

A nova Canudos e a nova Transamazônica

Boa tarde! Estive uma semana em Sobradinho e o clima aqui me fez lembrar Canudos. Sobradinho surgiu a partir do canteiro de obras da represa do mesmo nome. A cidade é feia e tem aspecto abandonada. O sol é escaldante e tudo é lento. Sobradinho tem alguns dos serviços básicos, mas tudo funciona pela metade. A internet é de uma lentidão irritante e os telefones públicos não funcionam. Tudo em Sobradinho faz lembrar descaso e omissão. Em torno da Igreja onde se encontra o bispo em jejum há 19 dias foram montadas barracas. Em uma delas há uma exposição de fotos; em outra, há exposição de propostas para o semi-árido e uma outra se constitui, na verdade, num espaço de discussão de questões relacionadas à bacia do São Francisco. Falei duas vezes nesse espaço. Apresentei meu trabalho de doutoramento e de um trabalho que retomei atualmente sobre os índios Tuxá, atingidos pela represa de Itaparica. Nesse momento, conversamos com camponeses, estudantes e militantes do MAB e MST e trocamos experiências. Na minha comunicação, fui várias vezes interrompida por beraderos que foram atingidos pela represa de Sobradinho e sofreram na pele a tragédia do deslocamento compulsório. Todos os dias acorrem à pequena capela de São Francisco caravanas de várias partes do Brasil; são religiosos, estudantes, agentes pastorais, militantes de ONGs, ativistas dos direitos humanos...Toda manhã o bispo sai à sombra de uma enorme algaroba, localizada em uma das laterais da capela, para falar com os visitantes ou curiosos. É nesse momento que atende a imprensa e os estudantes. Quando eu cheguei, ele estava bastante falante e bem humorado. Em geral, expunha às pessoas os motivos do jejum e explicava suas propostas alternativas ao projeto da Transposição. Agora, já não é tão falante e se mostra cansado. Seus colaboradores também estão exaustos e dão sinais de estresse. A tarde , o bispo reaparece e reza o terço com as religiosas e beatas. Às 19hs, todos os dias, é oficiada uma bela missa, à qual acorrem a população de Sobradinho e todos os acampados e visitantes. Muitas pessoas que vêm somente para ficar um dia, contagiados pelo clima, acabam dormido em Sobradinho para assistir a propalada missa. Na missa há congraçamento e muita manifestação de apoio e esperança. Segundo uma liderança do PT, a transposição é a Brasília de Lula. Todos que entendem minimamente do projeto acham que será sua Transamazônica. O bispo fala com fé e devoção. Ele acredita em um milagre. Eu não acredito em milagre e acho que temos uma grande parcela de contribuição a dar ao desfecho que está se prenunciando em Sobradinho. Estou conclamando você e demais intelectuais baianos a se pronunciarem sobre a Nova Canudos e a Nova Transamazônica.
O grande Machado de Assis não se omitiu em relação a Canudos. Qual vai ser sua posição?

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